Empresas investem em
prevenção para evitar multas e ações judiciais
Por Adriana Aguiar e Joice Bacelo
Valor Econômico - 07/01/2016
Para evitar multas milionárias e reduzir gastos com
processos trabalhistas, grandes empresas têm investido em programas de
prevenção (compliance) que, em alguns casos, incluem grupos de profissionais
especializados para atuar nos moldes do Ministério Público do Trabalho.
A estratégia, por exemplo, foi adotada pela JBS, uma das
maiores indústrias de alimentos do país, que pretende em cinco anos baixar
drasticamente seus custos com demandas trabalhistas.
O grupo realiza visitas surpresa às unidades da companhia. É
formado por médicos do trabalho, engenheiros e técnicos em segurança, advogados
e ergonomistas. Ao todo são 12 profissionais que se dividem em duas equipes
para viajar pelo país.
O Diretor executivo de Relações Institucionais da JBS,
Francisco de Assis e Silva, diz que os profissionais têm o papel de fiscalizar
e fazer correções quando houver irregularidade. O reparo deve ser imediato e,
quando não for possível, o prazo para adequação é de 30 dias.
"Tivemos uma situação em que quando o Ministério
Público chegou para fiscalizar a unidade, nossa equipe de compliance já havia
feito a vistoria e interditado equipamentos que seriam alvo da
fiscalização", afirma.
Segundo o executivo, cerca de 50% das irregularidades foram
sanadas desde a atuação da equipe trabalhista. As vistorias começaram nos
pontos críticos da empresa: unidades recém adquiridas, onde está concentrado o
maior passivo do grupo.
A JBS está na lista das dez maiores empresas com processos
em Tribunais Regionais do Trabalho (TRTS') de quatro Estados (Rondônia, Goiás,
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul). A lista foi divulgada em maio pelo Conselho
Superior da Justiça do Trabalho e trata de ações da primeira e segunda
instâncias até dezembro de 2014.
Silva busca um cenário diferente para a companhia em cinco
anos. Esse foi o prazo máximo estipulado para que, com a equipe de compliance,
consiga aproximar a zero os gastos com as multas e indenizações do trabalho.
"É preciso pensar no bem estar do funcionário, mas também
matematicamente. Há circunstâncias em que a correção monetária é de 1,5% ao
mês. Não podemos admitir isso num setor onde se fala em lucro líquido de 2% a
5%", afirma.
Os programas de compliance, de uma forma geral, passaram a
ser adotados pelas empresas para prevenir atos de corrupção dos empregados com
a administração pública. A medida está prevista como um atenuante às pesadas
multas da Lei Anticorrupção 12.846, de 2013. A norma está em vigor desde o
ano passado e prevê punições que podem chegar a 20% do faturamento bruto da
companhia.
Esse foi o ponto de partida para muitas companhias ampliarem
os programas da legislação anticorrupção para outros segmentos, entre eles a
área trabalhista. "A previsão legal é a mesma, mas o compliance
trabalhista está muito mais preocupado em criar mecanismos para o ambiente e as
relações entre os funcionários", diz o advogado João Roberto Costa, do
Viseu Advogados.
O especialista afirma que, se bem estruturados, esses
programas podem influenciar de forma positiva o clima organizacional da
empresa. "Hoje, é cada vez mais comum funcionários trocarem remuneração
por qualidade no trabalho."
No Grupo Novartis a área trabalhista está integrada ao
programa de compliance geral e tem como base o código de conduta da companhia.
Com atuação nos setores de saúde, agronegócios e nutrição, o grupo é formado
pelas empresas Novartis, Alcon e Sandoz. Segundo Felipe Kietzmann, diretor de
Compliance da Região da América Latina e Caribe da Alcon, cada área promove
anualmente uma avaliação de performance dos empregados.
"São estabelecidas regras objetivas para que o
colaborador saiba o que esperar", diz. No fim do ano, se o desempenho for
o esperado, será decisivo para definir se um aumento acima do dissídio e na
participação dos lucros.
A companhia possui um canal de denúncias, conduzido por um
funcionário com expertise em investigação, que fica nos Estados Unidos.
"Qualquer pessoa que presencie uma má conduta tem total independência para
fazer uma denúncia, que pode ser anônima", afirma o diretor.
O funcionário conduzirá a investigação e repassará as
informações a um comitê no país onde ocorreu a queixa. O comitê inclui o
presidente da empresa, o diretor de recursos humanos, o diretor jurídico e o
diretor de compliance. "O comitê avalia o caso, que pode gerar desde uma
advertência até o desligamento do funcionário." O denunciado também é
ouvido no processo de investigação dos fatos.
Já a empresa BRQ, uma das principais do país do setor de
serviços e tecnologia da informação, implementou um comitê trabalhista com o
objetivo de prevenir a contratação de empresas terceirizadas que adotem o uso
de mão de obra informal. Hoje cerca de 40% dos funcionários de companhias no
país da área de tecnologia são informais "Na BRQ, em consequência do
trabalho desse comitê, temos 100% de mão de obra formal", afirma o
presidente da BRQ, Benjamin Quadros.
O grupo também tem como função fazer com que a legislação
seja cumprida. No setor de tecnologia da informação, por exemplo, são
permitidas apenas duas horas extras por dia e deve existir um intervalo de 11
horas intrajornada.
Há ainda um canal da ouvidoria, para o qual podem ser
enviadas denúncias anônimas sobre condutas questionáveis dentro da empresa. A
área é chefiada pelo diretor de novos negócios da BRQ, Alexandre Camilo Peres.
"Qualquer denúncia é investigada de maneira isenta", diz.
"Descobrimos coisas que levaríamos muito mais tempo e podemos atuar com
mais agilidade".
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Fonte: texto originalmente publicado em Jornal Valor Econômico
Direitos autorais reservados exclusivamente a Jornal Valor Econômico
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